Poema de Cândido Brasil, vencedor do Enart 2017

O MÃO GRANDE     (Pseudônimo: Andarengo)

           Era um homem solitário, de origem desconhecida e fisionomia horripilante, segundo diziam, apesar de não se ter notícia de alguém que o tenha visto pessoalmente. Sua casa ficava localizada na saída da cidade, tomada por mato e aves incomuns como corvos e corujas, e à noite morcegos, muitos morcegos.
            Dizem que perdera a mão direita lutando com um cachorro louco, que o mordeu no pulso, arrancando o membro, enquanto que com a esquerda esfaqueava o animal, até arrancar-lhe a cabeça. Teria sido esta uma das raras vezes em que o teriam enxergado, visto que teria enterrado a própria mão na frente da casa, junto a um cinamomo, que no outro dia amanheceu seco.
             A partir daí espalhou-se a notícia de que a mão do homem havia matado a árvore e criou-se o mito de que ela, a mão, era coisa do mal e o homem recebeu a alcunha de Mão Grande.
            Na pequena localidade, quando as crianças arteiras aprontavam das suas, eram severamente repreendidas e ameaçadas com: - “vou te entregar pro Mão Grande”...
            Os moradores, quando perdiam alguma coisa, pediam para a mão grande, em forma de oração e logo encontravam...
             Apesar de tanto folclore em torno do estranho morador, que não incomodava ninguém, pois não aparecia, fato este que inclusive causava dúvidas em alguns quanto a sua existência, havia um outro morador específico, o Boca, que era o maior falastrão do local, que além de debochar de tudo e todos, desafiava, inventava e mal dizia contra o Mão Grande.
             O Boca dizia que o Mão grande era tão feio, mas tão feio que ele próprio não se olhava no espelho, que não saía de casa para o sol não se esconder de medo, que não tomava banho no rio pra água não fugir e ficar só o leito... Desafiava o Mão Grande a aparecer e mostrar a fuça. Dizia que ia soltar os cachorros para morderem a outra mão.
             Uma feita, durante jogatina e beberagem no boteco da localidade, veio a tona o assunto Mão Grande e o Boca saltou dizendo que não existia e se existisse era um covarde que não mostrava a cara e não aceitava o seu desafio. Os companheiros de trago então provocaram o Boca, dizendo que ele tinha medo do Mão Grande e que não se animava a desenterrar a mão que estava no pátio, na entrada da casa.
             O Boca topou o desafio, encheu-se de coragem e foi, só com uma faca para desenterrar a mão do Mão Grande e demonstrar para os amigos a sua valentia. Chegou na frente da casa, abriu o portão enferrujado e entrou. Os amigos ficaram olhando de longe.
            O Boca ajoelhou-se ao pé do cinamomo seco e começou a cavar. Um buraco, dois, três, quatro, cinco... e nada da mão. Iniciou, parou, reiniciou, até que o cansaço venceu-lhe as forças.
            Tomado de suor e raiva, levantou-se, recolheu algumas pedras e arremessou contra a casa gritando impropérios contra o Mão Grande. Recebendo o silêncio como resposta, o Boca voltou a carga das ofensas, quando então enxergou junto à janela a figura horripilante do proprietário, com olhos assustadores. O Boca deu um salto para trás e saiu em disparada, em completo pavor, segurando o pescoço para recuperar o fôlego. Os amigos chegaram e perguntaram o que havia acontecido, mas pela primeira vez na vida o Boca não disse nada e de cabeça baixa foi para casa.
Todos pegaram seu rumo, pois já se fazia noite.
            No outro dia, as plantas da frente da casa do Boca amanheceram todas secas. Tomados pela curiosidade os amigos fora até a casa e chamaram pelo Boca, mas ninguém respondeu. Bateram à porta e ninguém apareceu. Decidiram então arrombar a porta e entrar.
           No interior da casa só silêncio. Passaram pela sala e encontraram o Boca sentado na cama, vestido do mesmo jeito que no dia anterior, de olhos arregalados, dentes cerrados e as mãos no pescoço. Ao tentar acorda-lo nenhum sinal de vida. O pavor tomou conta de todos. 
            Baixaram suas mãos e notaram no pescoço do Boca a marca de quatro dedos no lado esquerdo e o que parecia um polegar no lado direito, como sendo uma mão grande tatuada.
            Todos saíram em disparada deixando o Boca morto sobre a própria cama.
           Foram direto ao Posto Policial, a fim de informar o delegado e quando passaram em frente a casa do Mão Grande, surpresos viram o cinamomo verde, com folhas copadas e o jardim da casa florido. 


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